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Album Review: "Ten Tonnes" é um debut forte, cheio de rock e personalidade


Ten Tonnes | Foto: Divulgação

A história de Ten Tonnes, nome artístico de Ethan Barnett, começou como a de muitos artistas britânicos: tocando em bares e pubs, participando de noites de open mic e estudando música (ou mais especificamente, no caso dele, produção musical) na faculdade.

Mas o que o torna diferente dos outros? A originalidade. Em um mundo dominado pelo pop e suas vertentes, Ten Tonnes foca muito mais em um indie com pegada de rock n' roll dos anos 50. Isso cria um som bastante interessante, e que difere do que predomina nas paradas musicais hoje em dia: é uma brisa de ar fresco.

Talvez exatamente por ter estudado produção musical durante algum tempo, que ele pareça saber exatamente do que suas músicas precisam, como precisam, e a melhor forma de executar todas essas ideias.

Capa do álbum "Ten Tonnes" | Foto: Divulgação


Conforme entrevista dada ano passado, o cantor havia anunciado que lançaria um álbum de estreia em 2019. No início de maio, ele cumpriu a promessa e lançou o "Ten Tonnes".

O disco, que leva seu nome, possui 12 faixas, e tem um estilo que lembra trabalhos mais antigos do The Kooks, principalmente dos álbuns Inside In/Inside Out e Konk. Essa sonoridade foi provavelmente obtida graças a Hugo White, ex-Maccabees, que foi o principal produtor do disco.

O álbum começa com "Lucy", faixa já bem conhecida pelo público e uma das primeiras a serem lançadas por Tonnes. A letra é chiclete, e é quase impossível não se pegar cantando o refrão 'Lucy-oh-oh' depois de escutá-la algumas vezes.


A canção fala sobre querer estar com alguém, fantasiar sobre isso, mas nunca se tornar realidade, como resume bem o trecho: "Em sonhos eu consigo ver o seu rosto / Mas na realidade você está sempre a dois passos de distância".

A versão original dessa música tinha sons de guitarra mais marcados e 'estridentes', mas nada que fosse irritante aos ouvidos; pelo contrário, era algo mais orgânico e, por isso, ainda melhor de ouvir.

A versão do álbum é mais sutil, mas continua sendo uma das queridas dentre os fãs, principalmente nas apresentações ao vivo.

Em seguida temos "G.I.V.E.", um dos singles mais recentes do disco e que dá continuidade ao que "Lucy" começou: imergir completamente o ouvinte na vibe do álbum.

É interessante ela vir logo após “Lucy”, já que são músicas de fases totalmente diferentes da carreira de Tonnes, o que fica perceptível ouvindo uma após a outra. Aqui, o cantor ousa mais, tanto na letra, quanto no uso de sua voz e no ritmo da música.

A letra fala sobre fingir que superou alguém sem ter superado de fato: "Ah, eu comprei passagens para o Peru / Tenho certeza que superei você / Mas se você mudar de ideia / Sim, você pode D.A.R. todo o seu amor para mim".




Já "Cracks Between" é a terceira faixa do álbum e uma das melhores. Apesar da melodia animada, ela fala sobre um relacionamento que está acabando aos poucos e sobre as “rachaduras” que estão sendo formadas no casal.

A letra é um pouco mais forte que as anteriores, pois apesar do nome ser um spoiler do que ela trata, ela é menos "direta", usando várias figuras de linguagem para falar sobre a "separação".

"Counting Down" é a quarta música do tracklist e a primeira "desconhecida" dentre os fãs, já que só foi lançada junto ao disco. 

Nela, o som vai ficando mais pesado. É como se de "Lucy" até aqui, as músicas fossem mudando de estilo, de forma gradual e quase imperceptível. Mas, como em "Counting Down" as guitarras pesam mais, você percebe essa mudança de forma mais acentuada.

A melodia se assemelha à de “Always Where I Need To Be” do The Kooks e também à de “Message In a Bottle” do The Police, principalmente no refrão.

Em "Counting Down", Ten também mostra mais do seu poderio vocal, explorando notas mais agudas e mais graves, que o normal, na mesma frase. Isso torna a música uma das mais interessantes porque, pela primeira vez no álbum, vemos ele testando a voz e ousando mais.

"Too Late", a música que vem em seguida, é provavelmente a mais fraca do disco. Apesar do refrão explosivo e empolgante, ela não tem muitas variações no verso e nem no pré-refrão, o que faz com que seja um pouco monótona, sem grandes novidades em toda a sua duração.




"Nights In, Nights Out" tem um ritmo bem cadenciado e agradável de ouvir, pegando o ouvinte desde o primeiro acorde. Segundo Tonnes, ela é “sobre rotina e ficar preso em um ciclo”.

O estilo vocal que Ethan adota aqui se assemelha um pouco com o de Jimmi Hendrix em "Vodoo Child".

Como "Counting Down", vemos várias trocas de ritmo acontecendo ao longo da canção, o que a mantém renovada e sempre interessante ao ouvinte, fechando a primeira parte do álbum em grande estilo. 

Em especial, vale mencionar a ponte, que tem um “duelo” de guitarras incrível, e que dá uma textura única à música.

"Better Than Me" vem em seguida e é outra música que o público já conhecia. Alguns dos melhores trechos da melodia ocorrem no pré-refrão, que tem um som de palmas bem sutil ao fundo; e, no final do penúltimo refrão, onde a música parece que vai acabar mas dá lugar a uma ponte, trazendo o ouvinte "de volta".

Nesta música, a gente sai do rock um pouco mais clássico e volta pro bom e velho indie rock. A letra parece falar sobre se sentir pressionado e pode ser aplicada em diversos contextos: "Eu sinto a pressão crescendo em meu quarto".

O álbum continua com a energia lá em cima em “Look What You Started”, onde desde os primeiros acordes de guitarra você se sente recarregado de tanta energia.

Talvez esta seja a música mais comercial do álbum. O refrão, por exemplo, é o do tipo de música que você imaginaria estando presente no próximo filme adolescente de sucesso. 

O ritmo é cativante, mas o refrão repetitivo, o que torna a música um pouco cansativa.



"Silver Heat" é, sem dúvidas, a música mais forte do álbum. Ela é acerto do início ao fim: os versos vão construindo a tensão tão bem até chegar no refrão, que, é impossível você não se pegar gritando a plenos pulmões, pelo menos o “AH!” do final do refrão.

A música é a melhor composição do cantor. Ele equilibra bem metáforas, frases engraçadas, e, com maestria, conta a história que deseja: “de uma pessoa que ele gosta, mas que ainda não esqueceu o ex”.

A faixa é inteligente, divertida e descontraída, além de bem descritiva, o que faz o ouvinte imaginar com clareza tudo o que está sendo contado. É como se conseguíssemos enxergar a história através dos ouvidos, tudo de forma muito bem encaixada com a melodia.

Inclusive, o refrão ilustra isso muito bem: ele começa relativamente tranquilo, até o momento em que Ten Tonnes canta “She keeps a picture in her left breast pocket”, sinalizando qua a suposta "garota" guarda uma foto de seu ex. Nesse momento, toda a dinâmica da música muda e Ten começa a gritar o resto do refrão, como se ele estivesse conversando conosco, em tom indignado, porque "ela ainda não esqueceu o ex".

Wake Up” marca o início do final do álbum. A música diminui drasticamente o ritmo do disco e é como uma espécie de transição entre as explosivas anteriores e as mais calmas que virão.

O estilo da faixa é mais puxado para o pop e dá continuidade à ideia de "Silver Heat" de “largue ele e fique comigo, eu estou bem aqui”.




Lay It On Me” foi lançada como um single solo e pode ser considerada, seguramente, como uma das melhores músicas de indie rock de todos os tempos.  A parte da letra faz várias metáforas brilhantes que, como as de "Silver Heat", são bastante gráficas.

Ainda sobre a letra, os contrastes oferecidos no início da música, de "vir rápido mas tentar ir devagar", "preciso de tempo sozinho mas te liguei", "te vi mas ignorei", contribuem com a ideia central dela: de se estar perdido, confuso e não saber muito bem o que fazer. Ethan canta “despeje seus problemas sobre mim” quando, na verdade, o próprio personagem da música tem problemas e não sabe lidar com eles: “É fácil se perder quando você não conhece o caminho", uma das frases mais marcantes do álbum.

A melodia, com algumas pausas propositais, principalmente no pré-refrão, cria uma tensão ideal para o refrão, que traz uma explosão de instrumentos, texturas e voz. É uma sinfornia em forma de música.

Segundo o próprio Ten Tonnes, a próxima faixa, Missing You” foi um desafio para ele. É que ela tem um arranjo mais lento que o que ele está acostumado a fazer.

O estilo da música lembra o da faixa “Love Me To Death” lançada no EP Born To Lose (2017), e o som do tamborim no início do refrão dá uma vibe bem relaxada à canção. 

"Missing Youé uma nova experiência ao se ouvir, pois nela, a melodia fica em segundo plano, e o que se destaca mesmo é a voz de Tonnes: forte, límpida e clara, com vibratos sutis interessantes.

Talvez o nome da música seja de propósito, já que nós, de fato, ficamos sentindo saudades, do álbum com essa última música.



Considerações Finais
O disco de Ten Tonnes tem tudo que um álbum de estreia deveria ter: abordagem de vários assuntos diferentes, passeio por mais de um estilo musical e suas vertentes, e melodias contagiantes com refrões que ficam na cabeça.

Na maioria das músicas, ele utiliza um modelo pré-definido, que consiste em ‘verso, verso, pré-refrão, refrão, verso, verso, refrão, ponte, refrão’, o que acaba tornando a estrutura um pouco previsível, mas nada que afete na qualidade das músicas, já que suas melodias são bem diferentes.

Uma característica muito interessante que se repete algumas vezes no álbum são refrões mais curtos e pré-refrões mais longos. Geralmente, é também nos pré-refrões que você encontra o ápice da melodia ou da letra. Isso é interessante porque tira o foco do ouvinte do refrão, e faz com que ele preste mais atenção em toda a música.

O cantor precisa desenvolver mais seu estilo de composição, pois ainda não parece ter encontrado o seu definitivo. Mas ele tem tempo e, sem dúvidas, muito talento. 

E, com um álbum de estreia desses, com certeza estará no cenário musical por muito tempo. O mais importante ele já conseguiu: fazer as pessoas ficarem ansiosas e curiosas pelo que vem a seguir.
Nota: 4 de 5.

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